Quando a inteligência artificial vira instrumento de violência dentro da escola
Especialista em Defesa do Consumidor e ex-Secretário de Estado de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro

Uma professora de 47 anos, de Feira de Santana, descobriu que sua imagem havia sido usada em vídeos pornográficos falsos produzidos com inteligência artificial. O conteúdo chegou a uma plataforma adulta e acumulou milhares de visualizações.
A Polícia Civil identificou dois adolescentes como autores. Um deles era aluno da própria professora. (Feira em Pauta)
O caso não é isolado. Um levantamento da SaferNet encontrou episódios de deepfakes sexuais em escolas de diferentes regiões do país. Em todos, a tecnologia foi usada para criar imagens de nudez ou conteúdo sexual sem o consentimento das vítimas. (SaferNet Brasil)
Quando isso acontece dentro de uma comunidade escolar, a direção precisa saber como agir desde o primeiro momento.
A escola não pode improvisar depois que a imagem circulou
A primeira resposta faz diferença. A vítima precisa ser acolhida sem exposição desnecessária. As provas devem ser preservadas, a família comunicada e as autoridades competentes acionadas.
Também é importante registrar onde o conteúdo foi publicado e pedir sua remoção. Prints, links, nomes de perfis, mensagens e horários ajudam na investigação. O cuidado psicológico deve fazer parte da resposta, principalmente quando crianças e adolescentes estão envolvidos.
A legislação brasileira já exige medidas de prevenção à violência no ambiente escolar. A Lei nº 14.811/2024 determina que o poder público desenvolva, com participação da comunidade escolar e dos órgãos de segurança e saúde, protocolos de proteção contra diferentes formas de violência. A lei também prevê capacitação contínua dos profissionais da educação. (Presidência da República)
No caso de imagens sexuais falsas envolvendo crianças ou adolescentes, o problema pode ter consequências ainda mais graves. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê crime para a simulação de cenas de sexo explícito ou pornográficas envolvendo menores, inclusive por meio de montagem. Quando o autor também é adolescente, a conduta pode ser apurada como ato infracional. (Estatuto da Criança e do Adolescente)
Prevenção precisa chegar à sala de aula
Proibir o celular ou bloquear uma ferramenta não resolve sozinho.
Os estudantes precisam entender o que acontece quando pegam a fotografia de uma colega ou professora, usam inteligência artificial para criar uma imagem sexual e enviam para um grupo.
A imagem pode ser falsa. O constrangimento, a exposição e o dano provocado à vítima são reais.
Esse debate precisa fazer parte da educação digital: consentimento, privacidade, responsabilidade pelo compartilhamento e consequências do uso da tecnologia para humilhar ou expor outra pessoa.
A própria SaferNet alerta para a rapidez com que esse tipo de conteúdo pode se espalhar e para os danos psicológicos e sociais causados às vítimas. (SaferNet Brasil)
A inteligência artificial já está dentro das escolas. A resposta não pode chegar somente depois que surge uma vítima.
Famílias, professores, diretores e alunos precisam saber a quem recorrer, como preservar as provas e quais providências tomar. Ter esse caminho definido antes de um caso acontecer evita improviso justamente quando é preciso agir rápido.
Você acha que as escolas estão preparadas para enfrentar casos de violência praticados com inteligência artificial?
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