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A “segunda conta” que a milícia cobra do morador do Rio

GF

Especialista em Defesa do Consumidor e ex-Secretário de Estado de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro

Rua de comunidade do Rio de Janeiro com portão instalado para controlar a circulação de moradores.

Pagar impostos, conta de luz, água, internet e gás já faz parte do orçamento de qualquer família. Em áreas dominadas pelo crime, porém, moradores relatam uma cobrança a mais: aquela imposta por quem controla o território.

Em Rio das Pedras, na Zona Oeste, cerca de 15 portões haviam sido instalados em vias públicas até abril de 2025. Segundo relatos publicados pela imprensa, moradores eram obrigados a pagar R$ 400 pela chave e mais R$ 50 por mês para ter acesso às próprias ruas. (Revista Oeste)

O portão é apenas uma parte desse sistema. Gás, água, internet e energia também aparecem entre os serviços explorados. O morador deixa de escolher onde comprar e passa a depender das condições impostas pelo grupo que domina a região.


Quando serviços básicos viram fonte de renda para o crime

Na reportagem sobre Rio das Pedras, comerciantes relataram cobrança de 10% sobre as vendas, além de uma taxa semanal de “segurança” que poderia chegar a R$ 350. Os valores foram relatados sob anonimato por moradores e comerciantes, diante do medo de represálias. (Revista Oeste)

Esse modelo não está restrito a uma comunidade. Investigações da Polícia Civil já identificaram grupos que exploravam gás, água, internet, transporte e outras atividades em regiões da Baixada Fluminense. Em uma operação de 2024, duas empresas provedoras de internet foram apontadas como parte de um esquema usado para lavar dinheiro obtido com atividades ilegais. (Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro)

Em agosto de 2026, uma investigação do Ministério Público do Rio e da Polícia Federal apontou movimentações suspeitas superiores a R$ 350 milhões ligadas a uma milícia da Baixada. Entre as atividades investigadas estavam provedores de internet, venda de gás e outros serviços explorados a partir do domínio territorial. (Ministério da Justiça e Segurança Pública)

É por isso que combater milícia não se resume a apreender armas ou prender quem está na rua cobrando uma taxa. É preciso descobrir para onde o dinheiro vai, quais empresas são usadas, quem administra os serviços e como os recursos entram novamente na economia formal.


O morador perde dinheiro e perde liberdade

Quando um grupo armado decide de quem o morador pode comprar gás, qual internet pode contratar ou quanto deve pagar para entrar na própria rua, não existe relação de consumo normal. Existe coerção.

O impacto aparece no orçamento, mas vai além dele. Comerciantes trabalham sob ameaça, empresas regulares encontram dificuldades para entrar em determinados territórios e famílias ficam presas a serviços escolhidos por quem exerce o controle armado da região.

O próprio Ministério da Justiça descreve as milícias como grupos que extraem recursos do controle ou da extorsão sobre mercados como água, luz, gás, internet, transporte, imóveis e taxas de segurança. (Ministério da Justiça e Segurança Pública)

Enfrentar essa estrutura exige atacar a fonte de renda. Enquanto o domínio territorial continuar produzindo dinheiro, haverá recursos para financiar armas, ampliar negócios clandestinos e disputar novas áreas.


Nenhum morador deveria pagar para entrar na rua onde mora ou ser obrigado a contratar um serviço escolhido pelo crime.

Segurança pública também passa por recuperar a liberdade de quem vive nesses territórios e cortar o dinheiro que sustenta as organizações criminosas.

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