Quase 6 em cada 10 adultos do Rio estão com o nome negativado
Especialista em Defesa do Consumidor e ex-Secretário de Estado de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro chegou a julho de 2026 com 59,53% da população adulta negativada, segundo dados do Mapa da Inadimplência da Serasa. É um número que chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo que representa no orçamento de milhões de famílias. (Diário do Comércio)
Nome negativado significa que uma dívida venceu, não foi paga e acabou registrada em um cadastro de inadimplência. É diferente de simplesmente ter uma dívida.
Quem comprou um eletrodoméstico parcelado, financiou um carro ou tem uma fatura do cartão ainda dentro do vencimento está endividado, mas não necessariamente inadimplente.
Essa diferença ajuda a entender dois números que costumam aparecer juntos e dizem coisas distintas sobre a situação financeira do país.
Endividamento bate recorde, mas o problema é maior entre quem já não consegue pagar
Em julho, 82% das famílias brasileiras tinham alguma dívida a vencer, o maior percentual já registrado pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC. A inadimplência, por outro lado, atingia 29,8% das famílias pesquisadas. (Portal do Comércio)
Outro dado ajuda a mostrar quem está sentindo esse peso com mais força. Um levantamento da Serasa apontou que 48% dos inadimplentes recebem até um salário mínimo. Outros 30% ganham até dois salários mínimos. (Exame)
Nesse cenário, reduzir o problema à falta de organização financeira é simplificar demais a realidade.
Quando a renda já chega comprometida por moradia, alimentação, transporte e contas básicas, um imprevisto pode ser suficiente para deixar uma fatura para o mês seguinte. Depois entram juros, multas e novas parcelas.
A dívida começa pequena e, em pouco tempo, passa a disputar espaço com as despesas do mês seguinte.
Renegociar a dívida resolve uma parte do problema
Conseguir desconto, reduzir juros ou dividir um débito em parcelas que realmente caibam no orçamento pode ajudar uma família a sair da inadimplência.
Mas um acordo só funciona quando pode ser pago até o fim. Aceitar uma prestação para limpar o nome e, no mês seguinte, deixar a conta de luz ou o supermercado para trás apenas troca uma dívida por outra.
Os números do Rio mostram que essa discussão precisa ir além das campanhas de renegociação. Quase 60% dos adultos de um estado com o nome negativado não é um dado para ser tratado como parte normal da vida financeira.
Renda, custo de vida, juros e a forma como o crédito é oferecido também fazem parte dessa conta.
Dívida não é sinônimo de inadimplência. Mas quando tantas pessoas já ultrapassaram a fase da parcela a vencer e chegaram à negativação, existe um problema que merece ser encarado de frente.
Renegociar é importante. Evitar que mais famílias entrem nesse ciclo também é.
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